Saúde mental sem tabus

Pessoas com  transtornos mentais sofrem não só com os sintomas em si, mas com o estigma sobre a doença. Durante muitos séculos foram tratadas sob o prisma religioso ou com qualquer viés do  sobrenatural. Na Idade Média, à exemplo, pessoas com quadros psiquiátricos atualmente vistos como graves, especialmente os que apresentavam sintomas psicóticos, com delírios, alucinações e desorganização do comportamento  eram tidas socialmente como punidas pelo divino ou possuídas pelo demônio. Esta visão foi aplicada para condená-las à tortura, aprisionamento e morte. 

A partir do século XVIII, na Europa, são iniciados estudos sobre o comportamento humano e implantado o tratamento no manicômio, baseado na ideia de correção moral como forma de reenquadrar aquele paciente nos moldes comportamentais da sociedade.  Nesse sentido, a loucura também é usada como objeto político para separar pessoas com ideias diferentes. Contudo, aos poucos, o que era considerado doença moral, passa a ser compreendido também como doença orgânica. 

É importante destacar que, no contexto da Medicina, a Psiquiatria é uma especialidade relativamente nova que se consolida ao longo do tempo com  os significativos avanços das neurociências, do estudo do funcionamento cerebral e do comportamento humano. Embora já respaldado no campo científico, é no imaginário popular onde se encontra o enraizamento de preconceitos e escárnios sobre os  transtornos mentais e os tratamentos psiquiátricos.

O CENÁRIO BRASILEIRO 

A revista Cadernos de Saúde Pública (CSP), da Fundação Fiocruz, de fevereiro de 2020, evidencia os transtornos mentais como um dos principais desafios na agenda de saúde do Brasil. De acordo com a CSP, transtornos depressivos e ansiosos respondem pela quinta e sexta causas, respectivamente, de anos de vida com incapacidade no país. Mundialmente, os transtornos mentais são responsáveis por 32,4% de tempo vivido com incapacidade. Outro dado agravante, ainda segundo a publicação, é o adoecimento emocional e psíquico cada vez mais cedo na população, com 30% dos jovens brasileiros apresentando sintomas de transtornos mentais comuns. Os prejuízos são sentidos por esse grupo em instâncias fundamentais para o desenvolvimento pessoal como no âmbito social, familiar e escolar.

De forma geral, os transtornos mentais comuns já acometem mais de 20 milhões de pessoas no Brasil, em todas as faixas etárias, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Realidades sociodemográficos e econômicos de um país também têm grande peso no desencadear de desordens psíquicas. Sobretudo, no caso brasileiro, além das mudanças intensas nas últimas décadas, como aumento de contingente populacional nas zonas urbanas, exposição à violência, desassistência pública e aprofundamento das desigualdades, a pandemia do novo coronavírus expôs a mente humana a um forte estresse causado pela incerteza. Esta somatização tende a exponenciar os índices de uma sociedade mental e emocionalmente adoecida. Com esse quadro, o que pode ser feito para desmistificar os transtornos e a busca por tratamento médico adequado?

CONVERSAR É PRECISO 

A medida que o tempo passa, mais pessoas buscam o atendimento psiquiátrico e passam a entender que para além de um diagnóstico, são seres com vulnerabilidades inerentes à condição humana. Uma abordagem médica humanizada, com escuta ativa, centrada no indivíduo  possibilita uma melhor evolução dos quadros clínicos. Outro tabu que precisa ser rompido, é o falar os transtornos mentais.  Debater abertamente os preconceitos com o objetivo de normalizar essas questões, a busca constante por informações qualificadas e conhecer de perto os casos são atitudes essenciais para seguir sem estigmatizar. 

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