Uma das feridas sociais que a pandemia do novo coronavírus revelou foi a fragilidade na saúde mental da sociedade, sobretudo, da parcela que precisa encarar o vírus diretamente, como os profissionais da saúde atuantes na linha de frente do combate. A comunidade científica já registra agravamentos nos níveis de sintomas de transtorno de ansiedade, depressão e burnout, que é o estado de estresse crônico.
Expostos a alta carga viral, os profissionais da saúde acumulam ainda jornadas de trabalho exaustivas, o medo de contaminar familiares, limitação de acesso aos equipamentos de proteção e o sentimento de não estarem adequadamente respaldados. Pesquisa divulgada pela Jama Network Open, nos meses iniciais da pandemia, revelou que mulheres, enfermeiros/as e trabalhadores/as da linha de frente de Wuhan, capital de Hubei, na China, foram os grupos que reportaram graus mais severos de sintomas psiquiátricos.
No Brasil, pesquisadores da área de psiquiatria da Faculdade de Medicina (FM) da Universidade de Brasília e do Hospital Universitário de Brasília (HUB) analisaram o comportamento de médicos residentes que estiveram envolvidos, entre os meses de abril e junho de 2020, no atendimento de pacientes com suspeita da Covid-19. Os resultados apontaram que, devido à ansiedade desses profissionais, 25% cogitaram trocar de especialidade. E, entre os sintomas de ansiedade, os mais detectados foram incapacidade de relaxar, medo de que aconteça o pior e nervosismo, constatados de forma moderada em 41,7%. Além disso, 83,3% afirmaram que a qualidade geral do sono esteve prejudicada e 75% apresentavam sonolência diurna.
Além das questões emocionais, as equipes hospitalares estão sendo infectadas. O Boletim Epidemiológico Especial mais recente divulgado pelo Ministério da Saúde indica que 33.453 trabalhadores da saúde contraíram o vírus somente no período de 14 a 20 de fevereiro de 2021. O último dado com o balanço geral de infectados é de agosto de 2020. À época, 258.190 pessoas do grupo da saúde foram diagnosticadas com Covid-19. As profissões de saúde com maiores registros dentre os casos confirmados são técnicos/auxiliares de enfermagem, seguido de enfermeiros, médicos e agentes comunitários.
Com essas informações é possível perceber a complexidade que envolve a vulnerabilidade dos trabalhadores da linha de frente. Frequentemente associadas a heróis, essas pessoas estão no limite e precisam de acolhimento tanto na esfera política quanto social. É preciso escutá-los para compreender os reais impactos sofridos neste atípico vivido mundialmente. Dar a devida importância ao bem estar emocional, físico e psicológico dessas pessoas pode auxiliar na humanização dos esforços que fazem e ajudá-los a reconhecer a própria fragilidade.
